Com ou sem filtro?

Usamos filtro para tornar a água potável para beber. Filtro no ar condicionado. Filtro para o óleo do motor. Filtro para fazer café. Nosso organismo filtra o ar que respiramos. Sem os rins para filtrar o sangue, morremos. Quando uma pessoa é “sem filtros”, ela talvez não se ajuste muito à vida em sociedade. O filtro solar nos protege da radiação ultravioleta do sol.

Quando é que se tornou motivo de orgulho e hashtag que algo seja #semfiltro? Que uso distorcido é esse que estamos fazendo dos filtros que, de algo para separar o que é nocivo à vida, eles é que se tornaram nocivos?

Usamos os filtros do Instagram para dar mais cor à vida. E não será isso por estar faltando cor à nossa vida real? E de que adianta ter cor na tela do celular se não soubermos extravasá-la para fora desse mundo virtual?

Se tem algo em comum aos filtros é que, para oferecer como produto algo “limpo” e aproveitável (água, ar, sangue…), o que fazem é separar as “impurezas”, a “sujeira”. Sujeira essa que se acumula e precisa ser eliminada. O corpo se encarrega de fazer isso diariamente e, quanto aos filtros que criamos, precisamos trocá-los ou limpá-los regularmente.

Estudos e mais estudos mostram como as redes sociais fazem mal à saúde mental, gerando ansiedade e baixa autoestima. Vemos a vida filtrada de tanta gente pelo Instagram, sem ver a “sujeira” que se acumula por trás de cada filtro. De nosso lado também, nos preocupamos em filtrar só o “melhor” para mostrar nas redes, enquanto se acumulam nossos resíduos.

E, assim, o filtro separa: o melhor vai para o virtual e, no real, fica toda a “sujeira” que preferíamos que não existisse. Mas que, não só existe, como é o que nos faz humanos. Os resíduos se acumulam e é difícil encontrar espaços e ferramentas para limpar ou trocar esses filtros. Adoecemos na vida real, tentando usar como remédio a felicidade esbanjada na vida virtual.

E mais: ao invés de filtrar o que queremos ver, pensar, onde queremos colocar nossa energia, deixamos esse trabalho por conta dos algoritmos das redes sociais. Grandes filtros também. Porém, não desses que filtram os resíduos, deixando aquilo que nos faz bem. Ao contrário, deixam aquilo que nos faz consumir, que nos faz passar horas e horas nas tais redes, sem filtrar para quê destinamos nosso tempo e nossa energia, vendo as vidas filtradas dos outros e preocupados em filtrar o que mostramos da nossa própria.

Eu não quero uma vida sem filtros. Quero uma vida com filtros mais intencionais. Que separam o que me é nocivo, do que me agrega. Que trazem cor à vida real e não só à foto. Quero filtros que sejam trocados regularmente para continuar a fazer bem seu trabalho de separar os resíduos.

E é fácil culpar as redes sociais por tudo isso, mas as redes são só uma ferramenta. Ainda está nas nossas mãos fazermos o uso que quisermos delas – pelo menos gosto de acreditar nisso.

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