Sobre desenhar a vida – Encontro com Mia Couto

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Perguntaram como era seu processo criativo e, como quem quisesse se esquivar, ele contou histórias engraçadas. Quando já parecia que ele não ia responder, o entrevistador tentou facilitar a tarefa: “uma rotina, você tem uma rotina para escrever?” Nos segundos antes que ele dissesse algo minha mente já listou mil rotinas possíveis (escrever todo dia, de preferência no mesmo horário, criar um ritual antes de começar, ler sempre…). E então Mia respondeu, como se nem tivesse ouvido a segunda pergunta: “Me apaixonar. O primeiro passo é sempre me apaixonar, seja por uma pessoa, uma coisa, um olhar, uma paisagem, um equívoco… aaah, adoro me apaixonar por equívocos.”*
 
E aquilo me tocou de tantas formas. Sentada no chão daquele auditório, ouvindo maravilhada a tudo o que ele dizia, tentava retraçar o caminho que me levara até ali. Impossível fazê-lo com a linearidade que minha mente racional exigia. Parecia ter começado na paixão por uma pessoa… mas passava também pela paixão por lugares, livros, ideias… hmmm.. e uma atração apaixonada pelo desconhecido. E os equívocos então? Paixão por equívocos e equívocos apaixonados… impossível listar todos. Abandonei essa pretensão, percebendo que não era apenas impossível, mas também bastante inútil. 
 
Afinal, ao contrário do que o mundo muitas vezes tenta nos convencer, a vida não é um desses desenhos pré-moldados que se revelam quando ligamos pontos seguindo a ordem já estabelecida. É incrível/assustador perceber como somos ensinados a desenhar a vida só ligando os pontos por linhas retas, seguindo uma sequência lógica e ainda com pressa de terminar logo, para, quem sabe, depois de tudo pronto, poder colorir um pouco aquele desenho (vida) sem graça.

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Se tem uma coisa que venho aprendendo a cada vez que a lógica de ligar os pontos parece “falhar” é que a vida está mais para uma pintura impressionista… AINDA BEM!!! Porque a vida é assim… olhando muito de perto parece um emaranhado de pontos e traços que não fazem muito sentido. Uma mistura louca de cores, de sombra e de luz. Só quando nos afastamos e conseguimos ver sob outra perspectiva é que percebemos a obra-prima que, juntos, aqueles pontos formam. E é tão impossível quanto desnecessário saber qual ponto veio primeiro e qual se seguiu.

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Naquela noite, ouvindo Mia falar, percebi que, muito mais importante do que tentar entender o emaranhado de pontos que me levara até ali, era estar presente e sentir a alma daquele momento, em que ele compartilhava conosco seu lema de vida: “estar sempre disponível, como uma espécie de esponja, para absorver o outro.”
 
E, assim, como uma esponja encharcada, saí dali apaixonada pela ideia de me misturar com todas as esponjas que cruzarem o meu caminho e quiserem adicionar uns pontos nessa pintura impressionista que é a vida.
 
 
*p.s: citações nada literais, filtradas por minhas interpretações, lembranças, paixões e equívocos.

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