O mais grave é que não foi golpe

O que significa o fato de Michel Temer poder romper com o governo que o elegeu como vice, manobrar por sua queda, sentar-se na cadeira da presidência e implementar o projeto eleitoral derrotado nas urnas? Muitos veem isso como um golpe fatal a uma democracia que vinha se fortalecendo. Discordo. Penso que isso nada mais é do que a exposição nua e crua das falhas e fraquezas dessa ~democracia~. Para mim, o mais ultrajante não é que estamos vivendo um golpe. Pelo contrário, o mais problemático e assustador é pensar que tudo isso está acontecendo EM CONFORMIDADE com o quadro legal brasileiro. Um sistema político tem que ser MUITO disfuncional para permitir que isso aconteça.

Sinto um grande mal estar a cada fogo de artifício ou manifestação comemorando o afastamento de Dilma. Entretanto, penso que um impeachment como este, que dá espaço para o vice-presidente adotar uma agenda completamente oposta à que o elegeu nada mais é do que uma caricatura do que existe de mais feio em nosso presidencialismo de coalisão. Assim como em uma caricatura, os defeitos são exagerados, deixando bem evidente o quão oportunistas são as alianças que nos governam. É por isso que, ao invés de punido, o PMDB pode ser recompensado ao romper com o governo que o elegeu e aliar-se ao principal partido de oposição para governar.

Dizem que o maior problema de Temer é ele não ter sido eleito pelo voto popular. Isso não é verdade. Ele foi eleito pelos mesmos 54 milhões de votos que elegeram Dilma. Mas, mesmo diante disso, nos recusamos a fazer um exercício de autocrítica e reconhecer que nós, brasileiros, votamos de forma personalista e ignoramos nosso sistema eleitoral, resultando na eleição tanto de um vice como Temer, como daquelas aberrações que vimos na Câmara dos Deputados.

A crise atual escancarou problemas gigantescos em nosso sistema político. Ficaram evidentes as dificuldades de governabilidade em um sistema presidencialista em que há quase 30 partidos com representação no Congresso. Tornou-se claro o déficit de representatividade de um sistema que elege deputados com voto proporcional, sem lista fechada e com regras esdrúxulas de fidelidade partidária. Escancarou-se a corrupção endêmica, ligada tanto às formas de financiamento de campanha, quanto à compra de votos de parlamentares para garantir a tal governabilidade. Isso só para citar alguns dos problemas.

Poderia ter sido uma oportunidade de ouro para colocarmos o dedo em nossas feridas e refletirmos, de verdade, sobre mudanças sistêmicas tão urgentes e necessárias. Ao invés disso, optamos pelo caminho mais fácil: eleger um bode expiatório para que, ao removê-lo, tivéssemos a sensação de dever cumprido. O impeachment foi a saída fácil para os ingênuos que acreditaram que o PT e a Dilma eram o único (ou, pelo menos, o maior) problema do Brasil. Mas, pasmem, também foi a saída fácil para o próprio PT. Sem o impeachment, caberia ao governo petista arcar com o ônus de sua insustentável política econômica, realizando as impopulares (mas inevitáveis) medidas de ajuste fiscal e, em 2018, ser submetido à avaliação popular nas urnas. Com o impeachment, o PT é poupado deste ônus e pode se refugiar sob o papel de ‘vítima do golpe’.

Hoje fomos nocauteados pelas disfuncionalidades de nosso sistema político e eleitoral. Sim, é um dia triste para a democracia brasileira. Mas será que triste mesmo não é a própria democracia brasileira?

A meu ver, não teve golpe, mas luta tem que ter, sim – e muita.

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