De coxinha a petralha?

Há poucos meses eu não sabia quem era Sérgio Moro. Eu via os resultados da Operação Lava Jato como produto de investigações e decisões tomadas por INSTITUIÇÕES, e não por heróis. Eu ficava chocada com todo o esquema de corrupção revelado e esperava, sinceramente, que houvesse julgamento e punição dos envolvidos. Se uma justiça impessoal, seguindo o devido processo legal, determinasse que os recursos da campanha que elegeu Dilma Rousseff foram ilegais, eu ficaria muito feliz que ela fosse devidamente punida, mesmo que isso significasse a impugnação das eleições de 2014 ou seu impeachment.

A primeira vez em que vi menções à possibilidade de Lula se tornar ministro, foi no Sensacionalista e pensei que era apenas uma piada. Fiquei tão chocada e indignada quanto muitos estão hoje ao ver que se tratava de um movimento real. Não votei no PT, há algum tempo que vejo medidas tomadas pelo governo como sinal de falta de compromisso com o futuro do país, mas nos últimos dias me vi forçada a questionar todo esse circo que vem sendo armado.

Hoje, um impeachment me parece cada vez mais inevitável e ao invés de ficar “feliz”, como pensei que ficaria, estou cada vez mais preocupada com a forma viciada que o processo vem tomando. Em abstrato, me parece claro que impeachment é sim um um processo legítimo e, de início, eu discordava de quem qualificava a situação como um “golpe”. Hoje me vejo forçada a concordar com a análise deste artigo que diz que:

“Não há dúvida de que o PT é repleto de corrupção. Existem sérios indícios envolvendo o Lula que merecem ser investigados de maneira imparcial e justa. E o impeachment é um processo legítimo em uma democracia quando provado que o suspeito é culpado de vários crimes e a lei deve ser seguida claramente quando o impeachment é efetuado.
Mas o retrato emergindo no Brasil em volta do impeachment e os protestos nas ruas são bem mais complicadas, e muito mais ambíguas, do que vem sendo dito. O esforço para remover Dilma e seu partido do poder lembram mais uma clara luta anti-democrática por poder do que um movimento genuíno contra a corrupção.”

Talvez digam que sou vira-folha, que em poucas semanas deixei de ser coxinha e me tornei petralha. Isso é muito sintomático do modo simplista como a discussão de temas tão delicados vem acontecendo no Brasil. A mídia faz um desfavor GIGANTE ao país ao incitar o ódio e a indignação popular, sem promover debates sobre as questões que realmente importam. Você acha mesmo que o Brasil acordará melhor no dia seguinte ao impeachment? Você já parou pra pensar que, com as discussões sobre a reforma política esquecidas, as eleições seguintes seguirão as mesmas regras que levaram ao esquema de corrupção investigado pela Lava Jato?

Nunca tive muita paciência para entrar em discussões políticas na internet, mas ultimamente me parece um dever de todos tentar aprofundar o debate raso que vem sendo feito. Por isso, me sinto obrigada a compartilhar quando vejo análises que fogem à narrativa maniqueísta predominante. E adorarei receber sugestões de leitura de outras análises igualmente fundamentadas, quaisquer que sejam as conclusões a que chegam.

Não fui às ruas no dia 13, nem no dia 18. Não porque não me importo com a situação, mas porque julguei que me juntar a qualquer um destes movimentos seria reforçar essa visão binária que refuto. Há quem diga que “ativismo” de Facebook é bullshit e menos válido que sair às ruas. Feliz ou infelizmente, hoje essa é única forma que encontro de manifestar minhas preocupações, tentando fugir da dicotomia coxinha-petralha.

Não tenho respostas às milhões de questões que se colocam nesta situação de crise. Mas me tranquilizaria ver que, ao menos, as PERGUNTAS estão sendo feitas. Infelizmente, esse não é o caso.

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