Pack light!

Hoje, enquanto esperava na fila do check in no aeroporto, ficava prestando atenção à quantidade de bagagens das pessoas. Tinha gente que mal conseguia empurrar o carrinho, de tanta coisa em cima. Mesmo sem saber quão longa era a viagem dessas pessoas, me arrisco a dizer que elas NÃO precisavam daquilo tudo. Parece que brasileiro tem mania de exagerar nas malas. Nunca vi outro país em que o limite de bagagem seja 2 volumes de 32kg, mesmo para voos internacionais. Não é a toa que somos mundialmente conhecidos por isso. Já ouvi de um taxista em Paris que ele não gostava de passageiros brasucas, porque, além de ter malas MUITO pesadas, eles nunca o ajudavam a colocá-las no porta-malas. Eu já fui dessas passageiras sem noção e, só depois de alguns perrengues brincando de Tetris pra fazer a mala fechar ou sofrendo pra carregar tudo sozinha, foi que aprendi a ser mais “econômica” na bagagem.

“Não, você não precisa de 10 pares de sapato pra viver, e a bolsa e a blusa de frio pra combinar com cada roupa. E isso vale pra uma viagem de 1 semana ou de 1 ano”. Bem que eu queria chegar e falar isso pra menina na minha frente, tipo, conselho de amiga mesmo… mas acho que ela não ia gostar de ouvir isso de uma estranha. Então, ao invés disso, só ajudei ela a tirar as malas do carrinho e a colocá-las na balança – quase 50 kg no total! Acho que ajudar estranhos a carregar malas pesadas deveria ser o 11º mandamento. Aprendi isso há alguns anos, quando alguns estranhos me ajudaram… e aprendi também que é verdade aquele adesivo comum nos carros (não sei se só em Brasília) que diz que gentileza gera gentileza!

Foi no fim do meu intercâmbio, em 2011. Eu ia de trem de Paris para Londres e, de lá, voltaria para o Brasil, então tinha que levar todas as minhas coisas. Meu trem era 6h30 da manhã – isso que dá comprar passagem barata. Eis que minha despedida de Paris coincidiu com a Fête de la Musique (uma das melhores noites do ano para se estar na França!). Voltei pra casa umas 5h e decidi tirar só um cochilo antes de ir pra estação. Perdi a hora, claro. Minha mãe tinha me avisado para chamar um táxi, mas eu morava tão perto da Gare du Nord… só 2 estações de metrô, táxi pra quê? Tá, tinha que andar quatro quarteirões até chegar no metrô, mas era uma descida, então, de boa. E daí se eu tinha duas malas de 30 kg e duas mochilas cheias pra carregar? Ia dar certo…

Acordei do cochilo no susto, já eram 6h e eu não tinha agendado táxi. O jeito era correr pra estação. Sem as malas, eu demoraria uns 15 minutos pra chegar, então até daria tempo de pegar o trem. Mas foi só fechar a porta do apartamento e apareceu a primeira dificuldade: como descer três andares de escada com as malas? Não pensei duas vezes, chutei as malas escada a baixo e deixei a gravidade fazer o trabalho difícil. Depois saí correndo que nem uma louca até o metrô. Novamente, escadas… mas dessa vez eu já sabia como fazer: chutei as malas de novo, enquanto as pessoas ao redor me olhavam assustadas. Uma boa alma viu a situação e veio me ajudar. É lindo como sempre aparecem uns anjos quando mais precisamos. Esse primeiro moço me ajudou até descer do metrô na Gare du Nord, mas depois ainda era preciso subir dois andares até o local do embarque para Londres. Apareceu outro anjo que me ajudou a carregar tudo até lá em cima. É claro que, a essa altura, eu já tinha perdido o trem. Pra ajudar, só naquele momento fui ler que o papel que eu tinha impresso era apenas um comprovante da compra, mas que era preciso retirar a passagem com antecedência, sob pena de pagar multa.

A moça do embarque orientou que eu fosse até o balcão de vendas para resolver o problema. O rapaz que me ajudava com as malas me acompanhou, esperou na fila comigo, tentou me acalmar e disse que conversaria com a vendedora. Nem precisou… a vendedora foi outro anjo e, sem cobrar nada, me entregou uma passagem para o trem seguinte. Muita sorte, nem dava pra acreditar!! (E os franceses não são exatamente conhecidos por facilitarem sua vida, né?) Na maior simpatia, o moço me ajudou de volta com as malas até a porta de embarque, desejou boa viagem e foi embora.

Eis que a moça fiscalizando os bilhetes olha o meu e diz:  “Não dá mais tempo, você perdeu esse trem”.  E, na mesma rapidez com que a sensação de alívio tinha vindo, ela foi embora. “Moça, não faz isso comigo, eu acabei de mudar a passagem porque perdi outro trem”. “Não tem como, você precisa ir lá no balcão de vendas e trocar”. “Mas eu nem consigo ir lá, olha quanta mala eu tenho, por favor…”. “E suas malas ultrapassam o limite permitido por passageiro”. Nããããão!!! E agora, o que faço? Antes que eu pudesse pensar em algo, acho que a moça se solidarizou comigo, porque ela só falou “Espera aí” e saiu andando. Depois voltou com uma terceira passagem e me deixou passar sem falar nada sobre as malas em excesso. Ufa, consegui, finalmente pegar o trem pra Londres!!!

As marcas de tudo isso ficaram: dor no corpo por uma semana, como se eu tivesse feito muita musculação; bolhas nas mãos; roxos enormes na perna; além das marcas nas malas jogadas escada a baixo. Alguns amigos não entendiam como eu contava isso rindo, ao invés de estar puta com toda a situação. Acho que tudo acontece por um motivo. Às vezes, o motivo é que você perdeu a hora, quis economizar no táxi, foi retardada de não imprimir a passagem direito… ou tudo isso junto. Mas aí você sempre tem a escolha entre ficar se lamentando e se culpando por ser idiota ou rir da situação e tentar encontrar uma solução. Parece que quando você escolhe a segunda opção o “universo” coopera e coloca uns anjos no seu caminho. Com certeza, em 2 anos em Paris, esse foi o dia em que mais pessoas gentis cruzaram o meu caminho!

Desde então, faço questão de ajudar quando vejo alguém com um monte de malas… mas, já que prevenir é melhor do que remediar, só um conselho: pack light!! E olhe direito as informações da sua passagem também… mas isso aí eu ainda demorei a aprender (se é que já aprendi…).

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