De Economia e Culinária

Não sei porque, mas tem um conceito da aula de INTECO (introdução à economia, que fiz em 2008) que, apesar de nunca mais ter usado, sempre me vem em mente: o de preferências adaptativas. Na verdade, nem me lembro onde esse conceito se encaixava, nem o que era exatamente, mas tem várias situações na vida em que penso que estou vendo isso em prática – os economistas, por favor, me desculpem se eu estiver falando besteira. Aqui em Luanda tenho pensado muito nisso, porque sempre vejo que a maioria dos angolanos não se importam de não terem coisas que fazem falta no meu cotidiano – como internet boa, variedade de comida, água quente no chuveiro… Eles não se importam, porque, geralmente, nem sabem o que é ter essas coisas.

Um caso que acho bem ilustrativo: outro dia fomos jantar com o pessoal do trabalho em um restaurante muito bom. No cardápio tinha risoto, picanha, sushi, frutos do mar, açaí… eu tava me sentindo no paraíso, nem sabia o que escolher. O colega que estava do meu lado olhou o cardápio até o fim, fechou e falou meio contrariado “aqui não tem comida da terra”. Traduzindo, a “comida da terra” que ele queria era funghi. Funghi é o alimento mais consumido em Angola, acho que pra preparar é só mandioca amassada com fubá e sem tempero. Come-se com peixe, carne, frango… de preferência com molho, senão é uma pasta seca e sem gosto. Quando fui experimentar, meus colegas me ensinaram que eu não podia mastigar o funghi, tinha que engolir direto. “Eu hein, mas você engole direto remédio, que é ruim, mas tem que tomar né”. Eles riram quando eu falei isso e continuaram felizes engolindo o funghi deles.

Os angolanos acham que funghi é a melhor coisa do mundo. Conversando com um menino que está tentando uma vaga pra fazer intercâmbio no Brasil, uma das “preocupações” dele era se lá tinha funghi. No restaurante com mil opções, meu colega tava querendo justamente funghi. As vezes eu sinto “pena” por eles comerem funghi todo dia, mas eles estão felizes assim. O problema é que meu colega nem sabia o que eram os outros pratos do cardápio. Tanto que, quando eu pedi, ele pediu a mesma coisa, sem nem saber o que era. Depois de comer o risoto, ele falou que era muito bom: “melhor que funghi”, mas aí ele hesitou e se corrigiu “não, só não é melhor que funghi”. Acho que a tal preferência adaptativa é isso…

É mais confortável pensar que cada um tem parâmetros diferentes pra medir o que considera bom. Eu acho que é bom ter variedade, ele acha que é bom ter funghi e todo mundo fica feliz. No entanto, se me lembro bem, o conceito de preferência adaptativa era justamente pra criticar tanta subjetividade e relativismo na determinação do bem-estar. Recorrer a esse lado subjetivo é um jeito fácil de evitar lidar com desigualdades. Como saber se o funghi é a preferência deles mesmo ou é a simples aceitação da falta de opções?

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