O tapa na cara que levei do Joaquim

Tentei evitar que o post fosse muito “sentimentalista”, mas hoje foi difícil…

Hoje o dia foi muito bom, parece que estou começando a encontrar meu lugar aqui. Mas no fim da tarde eu fique meio puta, porque entendi que internet aqui é SUPER caro e que a organização “me dá” o equivalente a só 60 mega de uso por dia. Pra ajudar, a energia acabou de novo (pelo terceiro dia seguido). Até tem gerador, mas aí com o gerador a água do chuveiro não funciona, enfim… acho que essa questão de infraestrutura vai render uns posts ainda. Resumindo, eu tava puta com tudo isso e resolvi ir jantar.

Até hoje eu não tinha ido a noite preparar um jantar. A cozinha fica na parte de baixo da casa e tem guarda aqui 24h. São três que revezam e a noite eles ficam no que seria a “sala de jantar”. Desde que cheguei, eu ficava meio “receosa” com os guardas e evitava ir muito lá embaixo. Quando acabava o trabalho, eu pegava alguma coisa de comer, ia lá pra cima e não descia mais. Falava bom dia, boa noite para os guardas, avisava quando ia sair e só.

Eu ficava pensando que seria muito legal se eu conseguisse conversar com eles, já que não tenho muito contato com as pessoas daqui e são eles que estão por perto o tempo todo. E também tenho curiosidade de saber da vida deles. Mas tinha “medo”, porque no dia que eu cheguei aqui (cheguei às 5h da manhã), meu colega foi me mostrar onde era a cozinha, e o guarda daquela noite (o Joaquim) tava deitado em um papelão com uma AK-47 do lado. Por isso eu mal conversava com os guardas, tinha reduzido todos os três àquela arma que, por sinal, eu nunca mais vi.

Hoje, vi o Joaquim chegando em roupas “civis”, encontrei com ele na cozinha na hora do almoço, o vi lendo (ou vendo, não sei, uma revista) e tive que pegar o telefone dele pra ele me avisar quando a energia da rede voltar, porque ele precisa da chave do escritório pra desligar o gerador. Com tudo isso fui criando uma imagem mais “humana” dele e deixando a imagem da arma de lado.

Quando resolvi ir jantar hoje, percebi, antes de chegar na cozinha, que o Joaquim estava lá. Ainda dava tempo de recuar sem ele me ver. Mas decidi parar de besteira. Eu não queria conversar com ele? Ótima oportunidade. Entrei na cozinha e fui fritar ovo (meus dotes culinários são beeem limitados). Coloquei dois ovos, porque estava com fome. Fui conversando com ele com essas perguntas de small talk mesmo… de onde ele era, há quanto tempo tá em Luanda, há quanto tempo trabalha na organização, se ia muito visitar a família, etc.

Eu vi que ele tinha acabado de comer, mas resolvi oferecer um ovo, acho que mais por educação. Ele aceitou. Ofereci também pão e queijo. Ele pegou o pão e, com o sorriso mais humilde do mundo, falou que nunca tinha comido queijo!!! Na hora, só dei um sorriso simpático e entreguei uma fatia de mussarela (ss ou ç, a grande questão!). Ele agradeceu, experimentou e gostou.

Depois eu saí da cozinha. Aquilo tinha sido um tapa na cara. Fiquei surpresa, chocada, com dó, me sentindo uma ingrata com a vida, nem sei explicar. Não é falta de ouvir, mãe, vó, tia, papagaio falar que a gente tem que agradecer o que tem. Eu até me achava muito grata, mas tem coisas que são tão comuns na nossa vida que é impossível não tomar como dado.

E foi assim que, em uma noite em que eu estava puta de não ter água pra tomar banho na hora que eu queria, de só ter 60 mega de internet por dia e de estar comendo pão com ovo, o Joaquim mudou tudo – muito mais do que só minha noite. Ele com certeza nem imagina o que fez por mim!

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