Denial – The Nile

No avião, voltando pra Paris, o comissário passou distribuindo jornais em árabe e em francês. Peguei um em francês e comecei a ler. Quando olhei de relance para o exemplar em árabe da moça ao lado, logo percebi que não se tratava da mesma coisa que eu estava lendo. Eu lia: “finalmente os acampamentos de Rabi’a e Annahda foram esvaziados e a calma volta às ruas do Cairo. Agora, o Egito colocará de lado esses conflitos (…)” e o outro jornal trazia fotos de vítimas, incêndios e outras cenas que poderiam ser de uma guerra.

Chocada, pensei “então é essa a diferença da imagem que eles querem mostrar para estrangeiros e egípcios?”. Pedi emprestado à moça o jornal em árabe. Não entendi muita coisa, é claro. Pensei ter reconhecido o slogan do jornal, mas não me lembrava de onde. Decidi levá-lo para casa, à espera do Google tradutor. Tudo fez sentido. O jornal em árabe era do Partido da Liberdade e da Justiça, o braço político da Irmandade Muçulmana, e partido do presidente deposto em 3 de julho. A manchete principal era: “General al-Sisi [o chefe das forças armadas] leva à guerra civil”. Em outras manchetes, sheikhs (líderes religiosos) chamavam a população às ruas ‘para defender a legitimidade’.

Foi então que entendi que aquela imagem tão discrepante não era a diferença entre o que eles queriam mostrar para o mundo e para os egípcios. Pior do que isso, talvez: era retrato da imensa polarização interna, de que os analistas políticos tanto falam. As notícias que eu lia em francês são as mesmas publicadas em árabe por fontes mais ligadas às forças armadas. Como imaginar alguma solução próxima quando duas narrativas tão díspares são “vendidas” e assimiladas pelos envolvidos?

Não conseguia conciliar isso com o otimismo dos egípcios que conheci. Todos pareciam querer evitar falar da situação política, mas eu insistia em perguntar. Quando contei que eu havia decidido ir embora, disse que esperava voltar logo e perguntei quando eles achavam que as coisas se acalmariam. As respostas eram sempre rápidas e convictas “em poucos dias”, “domingo tudo volta ao normal”. Diziam que é sempre assim e que já estavam acostumados a isso. Não entendiam muito bem porque eu estava indo embora.

Já que estavam tão otimistas, perguntei COMO achavam que tudo ia se resolver. A convicção das respostas anteriores sumiu. “Não sei bem como, mas vai voltar ao normal, sempre volta”. Muitos enfatizavam que a Irmandade Muçulmana representa apenas uma minoria da população e que o exército é muito poderoso e respeitado, então essa resistência não poderia durar muito tempo. Eu ficava calada, mesmo que essa resposta contradissesse o pouco que já estudei sobre o Egito.

Perguntei também pra muitos deles onde moravam no Cairo e como estavam as coisas em cada bairro/região. As respostas variavam. Um deles disse que estava tudo bem e que, se não tivesse um voo em poucas horas, me levaria para dar uma volta na cidade, para que eu mesma pudesse ver. Outro, no entanto, disse que podia ouvir tiros de casa com frequência, mesmo que não pudessem ver os confrontos. Outro, ainda, disse que havia confrontos na rua onde morava, mas a família não saía de casa e, portanto, estava tudo bem.

Em todas essas conversas, fui percebendo que a primeira resposta era sempre “está tudo bem” e “voltará ao normal logo, é sempre assim”; mas esse otimismo e convicção iam se perdendo à medida que eu insistia em fazer mais perguntas. Isso me fez pensar em uma citação que vi uma vez: “denial is not only a river in Egypt”, ou algo do tipo. De primeira, achei o trocadilho engraçado. Agora acho que começo a entendê-lo melhor… talvez a tranquilidade que todos deixavam transparecer fosse apenas uma tentativa de negar a gravidade da situação já que pouco, ou nada, podem fazer para revertê-la. E, no fim das contas, quem pode julgá-los por isso?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s