No Aeroporto do Cairo

Já na sala de embarque no CDG, minha amiga liga “você viu as notícias do Egito?”. Tento acalmá-la, dizendo que o problema é localizado e longe de onde ficarei. Mas assim que desligo o telefone, entro na internet e vejo que não é bem assim. O exército começou uma ação para desmontar os acampamentos de manifestantes pro-Morsi. A Irmandade Muçulmana reagiu bloqueando ruas, queimando carros e ocupando estações de metro. 

O vôo prepara-se para decolar para Istambul. Faltam ainda oito horas até o horário previsto para a minha chegada ao Cairo e é impossível saber como a cidade estará até lá – as perspectivas não são nada boas. O que fazer? Talvez o vôo seja cancelado em Istambul – nao seria ruim ter uns dias para conhecer a cidade. Ou eu poderia esperar no aeroporto no Cairo até que as coisas estivessem relativamente tranqüilas. Já me acostumei a dormir em aeroporto mesmo. Penso que o melhor é decidir em Istambul.

Chegando em Istambul, nao tinha wifi no aeroporto. Desde a manhã eu não via notícias sobre o Cairo. Comecei a prestar atenção nos outros passageiros – alguns ocidentais, muitas famílias com crianças, nao pareciam particularmente preocupados. Fiquei mais tranquila e decidi embarcar.

Quando sobrevoávamos o Cairo, deu pra ver que as estradas estavam vazias. Ainda tranquila, pensei que as pessoas estavam apenas sendo cuidadosas. Pensei que chegaria no aeroporto, a Ghada estaria me esperando e iria para casa – sem engarrafamento, que beleza!

No aeroporto do Cairo a internet também nao funcionava. Passei pela imigração, peguei minha mala e vi que a Ghada não estava lá. Mas tudo ainda parecia normal – egípcios nao são particularmente conhecidos por serem pontuais, ne? Vi um grupo de pessoas da AIESEC e pedi que me emprestassem um celular. Liguei para a Ghada e ela disse que nao ia me buscar no aeroporto por causa da situação e que havia me mandado uma mensagem no facebook.

Só entao consegui usar a internet com o pessoal da AIESEC. Antes mesmo de ver as notícias, liguei para a minha mãe. “Oi mãe, está tudo bem aqui”. Ela: “Ah, que bom, você voltou pra Paris, né?”. Foi quando vi o quão ruim as coisas estavam. Nas minhas poucas horas de vôo, mais de 200 pessoas foram mortas, as estradas estavam bloqueadas, e mesmo o pessoal da AIESEC que mora no Cairo nao podia ir para casa porque fora decretado estado de sítio.

E agora, o lado “bom” da história. Em poucos dias vai acontecer um dos maiores eventos da AIESEC, aqui no Egito. O pessoal já está no aeroporto há 3 dias (e ficarão até sexta-feira) recebendo os participantes que chegam do mundo todo. Eles estão em um café aqui no aeroporto mesmo que tá funcionando como um QG. Um lugar super legal, música animada, decoração colorida, cheiro de narguilé no ar e wifi (que mal funciona, por estar sobrecarregado). Daqui, é impossível imaginar o que está acontecendo lá fora. Na TV, só clipes, nada de notícias e ninguém parece muito preocupado. Ficar aqui no QG era o plano deles desde o início – vão pegar outro voo para a cidade onde acontecerá o evento – e ficam no Egito por apenas duas semanas, então “ça va”.

Eles me receberam super bem e vou passar a noite aqui. Posso ficar até sexta, quando todos vão embora. Eu poderia até fingir que estou na minha primeira “festa” no Cairo. O ambiente não deixa nada a desejar, mas é difícil relaxar. A grande questão é: o que eu faço? Pego o próximo voo pra Paris? Espero mais uns dias no aeroporto ou tento ir para minha “casa” em Maadi? Não tenho a menor ideia do que fazer e, com a internet muito ruim, fica difícil saber quais são as perspectivas para os próximos dias e meses.

E de hoje (quinta):

Passamos uma noite agradável, conversamos, rimos, e dormi bem, até que o calor e os mosquitos me acordaram. O único problema era a falta de internet. Mas acabo de conhecer uma brasileira que está morando aqui desde janeiro (e vai ficar até julho de 2014) e me emprestou o wifi.

Em resumo, eu estou bem. Não sai do aeroporto ainda porque a estrada que vai até onde vou morar estava bloqueada ontem (não sei hoje). Mas a brasileira que conheci também veio de Maadi e veio para o aeroporto hoje de manhã. Ela disse que por lá está tudo bem.

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