Metamorfose

A quarentena estava me saindo melhor do que encomenda. Ele, que não sabia se queria ficar só comigo, caiu nessa armadilha do universo, que nos prendeu juntos nisso, para descobrirmos que fomos feitos um para o outro! Ao menos, foi o que pensei, até que ele decidiu entrar em quarentena de mim.

De repente, virei o vírus de quem ele precisava se proteger. Olhando em retrospectiva, os sinais estavam todos ali. Quase como se ele tivesse colocado sua máscara contra mim. Era uma máscara caseira, que ainda o deixava em risco de se contaminar com o meu sentimento, com a minha vontade de estar com ele. Mas ele resistia e tentava se proteger. Será que eu já o tinha contaminado e ele era um portador assintomático?

Eu, vírus que me tornei, já não tinha mais poder de escolha. Me restava esperar para ver se, com o tempo, os sintomas apareceriam. Se ele sentiria minha falta ou se esqueceria da minha existência depois de alguns dias sem falar comigo. Curado. De mim. Após alguns sintomas leves, apenas. E agora imune. Para sempre.

Algo em mim sonhava com um “para sempre”, mas um bem diferente desse. E doeu me ver assim, metamorfoseada em vírus. Minha humanidade desfeita pela perspectiva de vê-lo desenvolver imunidade. De mim.

E, assim, vírus que era, fiquei. Ali, na superfície onde ele me deixou. Incapaz de sentir dor, raiva ou tristeza. Incapaz de derramar lágrimas porque as coisas não saíram da forma como eu desejava. Vírus que era, nem desejo eu tinha mais. Só resignação.

Ou seria sabedoria? Sabedoria de aceitar que as coisas são como são, e não como gostaríamos que fossem. De não resistir à realidade e aceitar o fluxo da vida, tal como ele se apresenta. E, acima de tudo, de entender que não está nas mãos do outro me metamorfosear… nem em vírus, nem em borboleta!

Once upon a time…

old typewriter (focus on text)

as i start to write our story
i struggle to figure out
what title fits it best…

a love story without a happy ending
a love story without an ending. happy
a happy love story with(out?) an ending
a happy story with(out?) a love ending

then i wonder
is it even possible
to know for sure
if the title is right
before the story is over?

is there more we can do
than just choosing a title
and writing the story together
adjusting it as to make the title true?

happy endings don’t come
just because they were meant to
but rather because
one was brave enough to build them
long before knowing when they were due

Sobre máscaras e proteção: quem é você, afinal?

mas

É aconselhável usar máscaras de proteção que viabilizem o convívio social. É recomendável ter mais de uma máscara e trocá-la com frequência. Há momentos em que é imprescindível retirar a máscara. E, desde que seja feito de forma segura, isso é, inclusive, muito importante. Caso contrário, de item de proteção, a máscara é que pode se tornar uma ameaça.

Toda essa conversa sobre máscaras pode se referir a formas de prevenção contra o corona vírus. Mas também refere-se a muito mais do que isso! Em nossa vida, precisamos nos adaptar a vários ambientes sociais e desempenhar diferentes papéis, segundo cada contexto. Há momentos em que atuamos como profissionais, mães/pais, filhos, amantes, eleitores, consumidores, entre tantas outras possibilidades.

A forma como exercemos cada um desses papéis sociais está ligada ao que Carl Jung chamava de “persona” – palavra que, em sua origem, designava a máscara usada por um ator, indicando o papel que ele iria desempenhar. Construímos nossas personas a partir de ideais do que pensamos que deveríamos ser e como gostaríamos que os outros nos vissem.

Apesar de aparentar uma individualidade, a persona representa, na verdade, um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser. Não é necessariamente uma mentira, uma farsa. Mas é, na melhor das hipóteses, uma verdade parcial. Pois, de tudo aquilo que somos, a persona é uma parte bastante restrita que escolhemos mostrar ao mundo em um dado contexto.

É importante construir com consciência nossas personas, para que possamos usá-las e não sermos usados por elas. O perigo está em acreditarmos que essa pequena parte à mostra, representa realmente tudo o que somos. Mais grave do que enganarmos os outros quanto a isso, é nos auto-convencermos sobre essa mentira. Assim, nos tornamos incapazes de enxergar e acolher nossa completude.

A persona é como se fosse a roupa que veste o ego. E um grande problema é quando nosso guarda-roupas fica igual ao da Turma da Mônica. Ou, então, quando nos identificamos a tal ponto com um papel que, de roupa, ele se torna uma camisa de força, da qual não conseguimos nos libertar. Passamos a acreditar que há somente uma forma de reagir às diversas circunstâncias da vida e, disso, advém muito de nosso sofrimento.

Entre as várias lições que podemos aprender com essa pandemia, uma muito importante é que as máscaras só nos protegem quando são trocadas com frequência. Que tal aproveitar o tempo extra em casa durante a quarentena, para fazer uma faxina nesse “guarda-roupas” de personas que você anda vestindo em sua vida? Quantas ainda te servem e quantas estão tão apertadas que é preciso segurar o fôlego para fechar o zíper?

E se você já tentou sair por aí usando uma máscara para se proteger do vírus, também já deve ter percebido que é um grande alívio chegar em um ambiente seguro, onde pode despir-se dessa proteção. E aí, fica mais uma reflexão: em quais situações de sua vida você pode se permitir ser quem é de verdade, abrindo mão das máscaras? Você tem a coragem de se mostrar e, principalmente, de se enxergar assim, sendo quem é de verdade?

Na quarentena, adote uma criança!

kid

É quarentena, as pessoas se isolam e as crianças ficam loucas trancadas em casa. Choram, gritam, esperneiam.

Na verdade, não é de hoje que essas crianças estão por aí, abandonadas. Já estavam pedindo atenção há muito tempo, mas com o barulho e a correria do dia a dia era fácil ignorá-las.

Agora a pandemia nos força a parar. Faz tudo silenciar e o barulho dessas crianças abandonadas se torna ensurdecedor. E parece que não tem ninguém ali para cuidá-las. E agora, quem poderá nos defender?

Não, nada de Chapolim Colorado, nem de outro herói mais moderno. Nada de olhar para fora em busca de soluções, quando a resposta que realmente importa está dentro de nós.

Que tal aproveitar que o mundo parou e você não pode descer para escutar o que a sua criança abandonada vem tentando te dizer? Se você ainda não o fez, essa é uma oportunidade incrível para cuidar da criança que mora dentro de você e aprender muito com ela!

É, aquela criança que você foi um dia… que era feliz, que se encantava facilmente até com o mais simples da vida, que era criativa e conseguia se divertir com qualquer coisa. É, essa mesma criança que também foi ferida. Que por circunstâncias reais ou por sua interpretação infantil não recebeu todo o amor que desejava. Que se sentiu abandonada e rejeitada. Que achou que não era boa o suficiente. Que acreditou que seus cuidadores eram divinos e se machucou ao tropeçar em sua humanidade, suas limitações.

É, essa criança que está sempre aí do seu lado. Que muitas vezes faz birra, esbraveja, chora desconsolada. E que você, adulto que é hoje, tenta silenciar, sem nem se preocupar em entender o por quê dessas reações desproporcionais.

Sei que é difícil achar espaço na agenda entre tantas preocupações de adulto para ouvir o que a sua criança está tentando lhe dizer. Para acolhê-la e acalmá-la. Para mostrar que ela não está mais sozinha, pois há um adulto que a protege: você!

Mas já imaginou passar todo esse período de quarentena com uma criança gritando e chorando dentro da sua casa? Desesperador, não é? E passar toda a sua vida com essa criança gritando e chorando dentro de você?

A situação que estamos vivendo é difícil de maneiras que ainda não conseguimos nomear ou mesmo imaginar. Mas ela será impossível se não dermos ouvidos aos gritos da criança ferida em nós. É dela que vem parte do desespero que estamos sentindo nesse momento. E é essa parcela de preocupação que está em nossas mãos mitigar. A preocupação decorrente dos fatos não. A parte desproporcional, sim.

Não deixe a sua criança ferida sozinha nesse momento tão difícil. Cuide dela. Mostre a ela que já não importa quão difíceis tenham sido as experiências pelas quais ela passou, pois, de agora em diante, ela estará bem cuidada e acolhida pelo adulto que você se tornou.

Aproveite o isolamento social forçado para se reconectar com você mesmo. Inclusive com as partes que mais doem e assustam.

Na quarentena, adote uma criança: a sua! Só assim será possível saborear a solitude, ao invés de sofrer com a solidão!

O mundo está ao contrário e ninguém reparou!

covid

Não, não estou falando desses últimos dias de quarentena mundial. Estou falando do modo de vida que hoje nos coloca diante disso. Que nos encerra em nossas preocupações egoístas e imediatistas. Que nos faz acreditar que coisas valem mais do que pessoas. Que a natureza está aqui para nos servir e que pode ser tratada como algo descartável, desde que tenhamos lucro, agora.
 
Há muito, o mundo vem tentando nos dar sinais de que as coisas não podem seguir por esse rumo, mas ignoramos solenemente. Mais uma barragem se rompeu. É terrível, mas não é comigo. Mais um terremoto, um tsunami, um tiroteio, uma pessoa que morreu de desnutrição ou afogada tentando fugir de uma guerra. Tudo isso me choca, mas não é comigo.
 
Em meio a crescentes desafios globais, seguimos acreditando que aquilo que acontece “ao outro” não nos afeta. Seguimos buscando soluções individuais para desafios coletivos. Perdemos completamente a noção de coletividade. Só enxergamos o outro para projetar nele a culpa por todas essas coisas terríveis “que não têm nada a ver comigo”. E quando a culpa é sempre “do outro”, a responsabilidade não é de ninguém.
 
E então a vida (destino, Deus, universo, como quiser chamar) nos apronta uma dessas… Uma nova epidemia surge na China. É terrível, mas não é comigo. Ela agora está na Itália, em São Paulo, no Palácio do Planalto. Mas nada disso é comigo. E se fosse comigo seria só uma gripe, então tudo bem. Até que passa a ser a comigo e não está nada bem. Terror e pânico. Mas é só eu me cuidar para não me contaminar, lavar a mão o tempo inteiro, comprar álcool 70, me trancar em casa, só sair de máscara, estocar comida para dois meses e tudo bem.
 
Existem excelentes soluções individuais, então por quê o pânico só faz aumentar? Porque o problema não é individual, é coletivo! E se não aprendermos essa lição AGORA, temos, sim, uma catástrofe iminente. Mas se o fizermos, podemos, não só evitar a catástrofe, como sair fortalecidos dela – enquanto indivíduos e enquanto humanidade.
 
Pense no sensor de ré do carro, que começa a apitar de forma leve. Pi… pi… pi… Mas a música está muito alta e você nem consegue ouvir e continua indo rumo à parede. Até que o sensor entende que o risco de colisão é iminente e vira aquele pipipipipi impossível de ignorar. E aí você pode pisar no freio e evitar o desastre ou continuar o que está fazendo e bater na parede. O corona vírus pode ser a parede ou o sensor de ré. Pode ser o fim do mundo ou o alarme que soa e nos faz acordar a tempo de evitá-lo. E isso vai depender de cada um de nós aprender a parar de culpar “o outro” e assumir a responsabilidade que nos cabe nesse caos!
 
 
*
P.s: Uma dica do que assistir nesse momento? O episódio “A Próxima Pandemia” da segunda temporada da série “Explicando”, do Netflix (de novembro de 2019!). O início pode parecer assustador, mas sugiro que você continue assistindo para conseguir colocar em perspectiva histórica tudo o que está acontecendo agora. Ao final do filme, a minha sensação foi a de que o Covid-19 é EXATAMENTE o alarme de que precisávamos nesse momento para evitar que o mundo continue andando de ré até bater na parede. É um vírus extremamente contagioso, sem ser intrinsecamente letal.
 
Basta ver o exemplo do que está acontecendo na Alemanha: letalidade baixíssima, pois os casos mais graves têm acesso ao tratamento necessário. Se cada um de nós (como indivíduos, autoridades, empresários, etc.) fizer a sua parte, podemos garantir que o resto do mundo, que não tem um sistema de saúde alemão, também seja capaz de garantir tratamento aos casos mais graves, reduzindo muito o custo humano dessa crise. Se conseguirmos fazer isso, certamente sairemos fortalecidos como humanidade!

(Nem tão) de repente 30!

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Com 20 anos eu adorava fazer planos, mas tinha medo de sonhar. Perdia horas de sono calculando os próximos passos, o próximo destino. Traçava todos os cenários possíveis como se, assim, nada pudesse acontecer fora do planejado. A vida ria da minha cara, tentando me ensinar – ora com mais drama, ora com menos – que as coisas não são bem assim.

Eu queria conhecer o mundo, sem perceber que mal conhecia a mim mesma. Desisti das malas gigantes, quando me dei conta que o que mais pesava eram as expectativas que eu carregava sem nem saber que não eram minhas. Deixei-as rolar escada abaixo e pude respirar, aliviada.

Eu andava por aí querendo salvar o mundo. Me colocava em situações arriscadas e quebrava a cara. Até que entendi que, se fosse para salvar algo, tinham que ser as partes mais frágeis em mim. Só eu poderia fazê-lo.

Achava que ter coragem era sinônimo de fechar as malas e partir, sem olhar para trás. Aprendi que coragem muito maior é abrir as feridas e sentir. Olhar para dentro. Acolher e deixar doer, até curar.

Compreendi que só coração partido consegue se abrir. E só coração aberto faz a vida pulsar. E que juntar os pedaços é a melhor forma de me tornar mais inteira, resgatando partes minhas que estavam projetadas no outro.

Aprendi que, na viagem da vida, mais vale ter uma bússola, do que um GPS. Calcular rotas exatas pode ser uma ilusão bem confortável. Nem por isso deixa de ser ilusão.

Descobri que sempre escolhemos nossos companheiros de viagem, inclusive aqueles que mais nos incomodam. E que o mais importante não é aonde vamos chegar, mas o quanto conseguimos aproveitar e aprender no caminho.

Minha avó sempre reclama que “ficar velho não presta, não”. Mas, se completar décadas não é garantia de amadurecimento, tampouco precisa ser sentença de envelhecimento. A gente não envelhece com o passar do tempo. Envelhece quando desiste de aprender, quando se fecha para o novo e quando perde a habilidade de se encantar com a vida… seja aos 20, aos 50 ou aos 90 anos!

Com ou sem filtro?

Usamos filtro para tornar a água potável para beber. Filtro no ar condicionado. Filtro para o óleo do motor. Filtro para fazer café. Nosso organismo filtra o ar que respiramos. Sem os rins para filtrar o sangue, morremos. Quando uma pessoa é “sem filtros”, ela talvez não se ajuste muito à vida em sociedade. O filtro solar nos protege da radiação ultravioleta do sol.

Quando é que se tornou motivo de orgulho e hashtag que algo seja #semfiltro? Que uso distorcido é esse que estamos fazendo dos filtros que, de algo para separar o que é nocivo à vida, eles é que se tornaram nocivos?

Usamos os filtros do Instagram para dar mais cor à vida. E não será isso por estar faltando cor à nossa vida real? E de que adianta ter cor na tela do celular se não soubermos extravasá-la para fora desse mundo virtual?

Se tem algo em comum aos filtros é que, para oferecer como produto algo “limpo” e aproveitável (água, ar, sangue…), o que fazem é separar as “impurezas”, a “sujeira”. Sujeira essa que se acumula e precisa ser eliminada. O corpo se encarrega de fazer isso diariamente e, quanto aos filtros que criamos, precisamos trocá-los ou limpá-los regularmente.

Estudos e mais estudos mostram como as redes sociais fazem mal à saúde mental, gerando ansiedade e baixa autoestima. Vemos a vida filtrada de tanta gente pelo Instagram, sem ver a “sujeira” que se acumula por trás de cada filtro. De nosso lado também, nos preocupamos em filtrar só o “melhor” para mostrar nas redes, enquanto se acumulam nossos resíduos.

E, assim, o filtro separa: o melhor vai para o virtual e, no real, fica toda a “sujeira” que preferíamos que não existisse. Mas que, não só existe, como é o que nos faz humanos. Os resíduos se acumulam e é difícil encontrar espaços e ferramentas para limpar ou trocar esses filtros. Adoecemos na vida real, tentando usar como remédio a felicidade esbanjada na vida virtual.

E mais: ao invés de filtrar o que queremos ver, pensar, onde queremos colocar nossa energia, deixamos esse trabalho por conta dos algoritmos das redes sociais. Grandes filtros também. Porém, não desses que filtram os resíduos, deixando aquilo que nos faz bem. Ao contrário, deixam aquilo que nos faz consumir, que nos faz passar horas e horas nas tais redes, sem filtrar para quê destinamos nosso tempo e nossa energia, vendo as vidas filtradas dos outros e preocupados em filtrar o que mostramos da nossa própria.

Eu não quero uma vida sem filtros. Quero uma vida com filtros mais intencionais. Que separam o que me é nocivo, do que me agrega. Que trazem cor à vida real e não só à foto. Quero filtros que sejam trocados regularmente para continuar a fazer bem seu trabalho de separar os resíduos.

E é fácil culpar as redes sociais por tudo isso, mas as redes são só uma ferramenta. Ainda está nas nossas mãos fazermos o uso que quisermos delas – pelo menos gosto de acreditar nisso.